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Acidente fatal na Serra da Moeda Durante a quarta etapa do Campeonato Cearense de Voo Livre os primeiros passos foram dados para a melhoria e profissionalismo do esporte no Ceará. Após uma reunião organizada pela FEPACE o piloto Michel Krueger apresentou um trabalho de normatização de procedimentos de voo e comunicações a ser utilizado na Munguba e posteriormente, com as devidas adaptações, em todo o estado. O número de participantes e a seriedade com que foi tratado o tema foi a comprovação que tempos de amadorismo no esportes ficou no passado.
Infelizmente na mesma oportunidade em que ocorria nosso campeonato e esta reunião, em outro sítio de voo ocorria uma fatalidade. Em nosso esporte, guardado o devido respeito ao piloto e a seus familiares, é de suma importância a análise técnica do acidente de modo a que este infortúnio possa contribuir de alguma maneira para a melhoria da segurança de seus praticantes. Coletamos dois relatos que são descrições do ocorrido com a análise e opião de pilotos que estavam no local. São testemunhos que lutar pela melhoria da segurança, profissionalismo na instrução e comprometimento geral com regras para uso mútuo do espaço aéreo são fundamental para a boa prática do nosso esporte
PARA PENSAR 1 VERDADES E MITOS SOBRE VOO LIVRE "VOO LIVRE É UM ESPORTE ARRISCADO" - VERDADE.
Se pendurar num pedaço de pano que fica suspenso por um monte de linhas ao sabor de correntes de ar, certamente é uma atividade de risco. O que as vezes não fica muito claro é que é possível praticar uma atividade de risco com consciência. Gerenciar os riscos.O canto da Sereia é tão forte e convincente que, as vezes, até os próprios pilotos passam a acreditar que são malucos sem nenhum senso de amor ao próprio couro. Ou que devem agir como se fossem.É possível voar de parapente sem se correr risco desnecessários. Para isso é preciso entender que a atividade é inerentemente de riscos.
"VOO LIVRE É UM ESPORTE DEMOCRÁTICO" - MITO.
Um dos mitos mais comuns em que muita gente (inclusive eu) acredita ou acreditou.Voar é, ao contrário, um esporte extremante seletivo. A aptidão para ser piloto de parapente é tão clara como a inaptidão de alguns. Tentar tornar apto aquele que não tem aptidão é um erro que normalmente redunda em risco de vida. Para esses (que tem vontade mas não tem aptidão), existe o voo duplo.Criar a habilidade para pilotar naqueles que já tem aptidão ou avisar ao candidato a futuro que piloto que a brincadeira não é para ele - esse é o papel de um bom instrutor.
"VOO LIVRE É UM ESPORTE AMADOR" - MITO.
A estrutura do voo livre hoje é de um esporte profissional. Há centenas de pessoas vivendo do voo livre no Brasil, muitos realizando tarefas com extrema competência. Há que se entender entender no entanto que a raiz do voo livre é fincada em terras férteis ao empirismo. É preciso não confundir uma atividade profissional com uma atividade que seja alvo de estudos e que deixe, por isso, de ser empírica. O que falta ao voo livre não é profissionalismo: é estudo e método. Organização enfim.
"VOO LIVRE É UM ZOOLÓGICO" - VERDADE.
Provavelmente nenhum outro esporte tem a capacidade de juntar tanta gente diferente em um mesmo lugar com um único objetivo. Desde que haja aptidão e paixão pela brincadeira, pessoas das mais diferentes idades, etnias, classes, gêneros, índoles, temperamentos, crenças e experiências convivem bem.
"VOO LIVRE É COISA DE GENTE DOIDA" - VERDADE.
Dizem que louco é qualquer ser vivo que pisca. Ou ainda aquele que não tem comportamento ditado pelo que a maioria julga razoável. Nesse sentido, somos todos loucos por termos optado pelo indescritível prazer de voar sozinhos e sem motor por horas pendurados por aquele monte de linhas fininhas. Pobre do bicho homem que se imagina feliz e pleno se enquadrando na "normalidade".
RELATO 1 Amigos, RELATO 2 Prezado Fred Mercury,
RELATÓRIO CBVL O acidente que vitimou Sr. Castilho Saraiva Rodrigues, ocorreu no sábado, dia 07 de novembro, às 14:30hs, na rampa de decolagem Oeste (Moedão) da Serra da Moeda. Segundo as informações prestadas pelos familiares e por alguns pilotos de Viçosa, ele voava a cerca de 2 anos, não era habilitado e possuia um parapente Quarx Windtech Amarelo - DHV 2. A condição do vendo no momento do acidente era moderado (noroeste 15 km/h). Com cerca de 20 parapentes em vôo nas proximidades naquele momento. O Sr. Castilho, 52, residente em Viçosa veio à Belo Horizonte como parte de um grupo de 5 pessoas interessas e voar de parapente na Serra da Moeda, dos quais quatro eram originários de Viçosa/MG e um da cidade Ubá/MG. Quando o grupo chegou ao CVLBH - Clube de Vôo Livre Belo Horizonte, na Serra da Moeda, por volta das 11hs, o fiscal (Marcos) solicitou ao grupo que apresentasse as suas respectivas habilitações e/ou as carteiras dos seus Clube de origem para que fossem autorizados a decolar. Três pessoas do grupo de Viçosa apresentaram as suas respectivas habilitações ao fiscal, e o piloto de Ubá/MG, apesar de piloto habilitado pela ABVL e associado do Clube de Vôo Livre de São João Neponuceno, informou ao fiscal que havia esquecido sua habilitação no seu carro em sua cidade. Por esse motifivo foi proibido pelo fiscal de voar na Serra da Moeda, tendo acatado a proibição sem ressalvas. O Sr. Castilho por sua vez, informou que havia deixado o documento no carro que estava estacionado no CVLBH e que voltaria para buscar o documento. Após deixar o seu equipamento de Vôo na rampa, o Sr. Castilho retornou ao veículo estacionado, e apresentou ao o fiscal uma carteira da Associação de Vôo Livre de Juiz de Fora. Como a carteira apresentada estava vencida, e ele não apresentou o recibo de pagamento da anuidade do clube de origem, o fiscal solicitou que ele efetuasse o pagamento de uma taxa de R$ 15,00, antes de ser autorizado a utilizar a rampa de decolagem. Na sua primeira decolagem o Sr. Castilho ao correr para entrar em vôo segurou diretamente nos tirantes do parapente, atitude que foi observada por alguns pilotos presentes que estranharam o procedimento adotado e a habilidade do piloto. Ao final desse primeiro vôo o piloto opta por pousar na própria rampa de decolagem, procedimento que é indicado apenas para pilotos experientes, e ao entrar no pouso erra a aproximação e desce sobre as pedras existentes na trilha que leva até a biruta nº 2. Os demais membros do grupo, com exceção do piloto que estava proibido de voar pelo fiscal, decolaram normalmente e pousaram no japonês, sendo resgatados posteriormente pelo piloto de Ubá. Na sua segunda decolagem por volta de 14:30h, segundo relato dos presentes, ao inflar a vela o Sr. Castilho não conteve o seu avanço do velame, ocasionando um colapso assimétrico do lado direito. Ainda assim o "piloto" optou por decolar, quando o correto seria estabilizar ou matar a vela. Na tentativa de decolagem o parapente virou para a direita fazendo com que o piloto tocasse a rampa com os pés novamente, e desse cerca de três passos até jogar o peso do corpo para o lado esquerdo na tentativa de entrar em vôo novamente. Com a pouca sustentação o parapente afunda, enquanto o piloto gira em torno do seu eixo em virtude do movimento brusco e do colapso assimérico do velame, entrando em "twist". Ainda assim o parapente entra em vôo e segue cerca de 60 metros até iniciar um giro de volta para a montanha, fazendo com que o piloto se chocasse frontalmente contra a Serra da Moeda, cerca de 40 metros abaixo da área de decolagem. Um grupo de pilotos desce a encosta da Serra para socorrê-lo, mas antes que os mesmos consigam alcança-lo o piloto começa a rolar pelo declive por mais cerca de 40 metros até uma pequena garganta, onde fica parcialmente preso. Segundo as informações dos socorristas o local era muito ingrime e havia muita dificuldade em encontrar apoios na encosta e para se segurarem. O piloto e instrutor Wander Mota Rodrigues, que foi o primeiro a se aproximar do velame antes da segunda queda, informou que tentou se aproximar do piloto contornando o velame pela direita, mas ficou sem apoio e foi obrigado a retornar para tentar a aproximação por outro ponto. Mesmo sem equipamentos apropriados e correndo sérios riscos, um grupo de três pilotos (Wander, Flávio Guerra e Manoel Landin) insistiu na descida para prestar os primeiros socorros, estabilizar a vítima, relatar o estado em que a vítima se encontrava e impedir que o piloto despencasse ainda mais pela encosta. Quando foi alcançado pelos pilotos que desceram para socorrê-lo, os mesmos encontraram a vítima consciente, constatando uma fratura exposta no femur direito e um sangramento na perna esquerda. Ao perguntarem a vítima foi seu nome e sua idade, para avaliar o seu grau de conciência, ele respondeu que se chamava Castilho e tinha 29 anos, quando a idade correta era 52 anos. Na sequência a vitima começou a falar frases desconexas, insistiu em desconectar as alças da selete e ameçou se jogar da encosta alegando que já "estava morto". Demandando um grande esforço dos pilotos para conter a vítima, que se debatia sem se importar com os riscos que sua atitude representava para ele e os demais pilotos que tentavam socorrê-lo. Os socorristas informaram ter recebido vários golpes desferidos pelo Sr. Castilho, enquanto seguravam e falavam para o acidentado para não se mover, pois a situação de todos eles naquele momento era crítica. Para impedir que o piloto acidentado soltasse os mosquetões, que prendem o velame à selete, o Sr. Wander esticou as linhas do tirante, exercendo uma pressão suficiente para que os mesmos não pudessem ser abertos. Por várias vezes o piloto acidentado foi alertado que o esforço que ele despendia para se desvencilhar dos socorristas seria de vital importância para se manter estável e conseguir resistir até os Bombeiros chegarem. Passado mais algum tempo a vítima começou a apresentar dificuldades em respirar e ficou inconciente, obrigando os presente a realizarem massagens cardíacas, até a chegada do grupamento do corpo de bombeiros. Um helicóptero foi mobilizado para o resgate e os primeiros bombeiros que chegaram ao local foram conduzidos até a vítima pelo piloto Rinaldo Pereira, uma vez que a encosta não permitia que a vítima fosse visualizada mesmo a curta distância. Sendo necessário recorrer ao uso de cordas. Ao alcançarem a vítima os bombeiros continuaram com as massagens cardíacas enquanto adotavam os procedimentos necessários para a sua remoção. Infelizmente o Sr. Castilho não resistiu e veio a óbito no local. Ao procurarmos os equipamentos de vôo para serem periciados, fomos informados que os mesmos haviam sido recolhidos e levandos pelo grupo de pilotos de Viçosa que o acompanhavam, os quais foram embora do local antes mesmo que o corpo fosse removido para o IML, levando os equipamentos que deveriam ser periciados e colocados à disposição das autoridades. Os pilotos que compunham o grupo foram bastante evasivos quando questionados pelos demais pilotos sobre a vítima, sua experiência e formação, se limitando a informar apenas que era um conhecido que se prontificou a viajar com o grupo e que não dispunham de maiores informações sobre o piloto. O grupo também levou os documentos da vítima, fazendo com que o piloto acidentado desse entrada no IML como indigente, visto não ter qualquer identificação. Situação que demandou o deslocamento dos familiares do Sr. Castilho até o Posto Medico Legal da cidade de Betim para realizar o reconhecimento do corpo. Como não dispunhamos de maiores informações sobre o Sr. Castilho, entramos em contato com a Associação de Vôo Livre de Juiz de Fora, ABVL e ABP, e todas as entidades informaram não haver registro de nenhum piloto com aquele nome. Consultamos os nomes dos demais pilotos do grupo e constatamos que apenas um dos membros do grupo de Viçosa era habilitado como piloto Nível-II pela ABVL e associado à Associação de Vôo Livre de Juiz de Fora. Somente conseguimos contatar os demais membros do grupo de Viçosa no dia seguinte. E quando questionados sobre suas habilitações, informaram que tal como a vítima, não eram pilotos habilitados, que praticavam vôo livre sem ter feito nenhum curso específico, voavam em várias rampas da região, não possuiam um instrutor e que apenas trocavam informações entre si. No entanto, não quiseram responder sobre a origem dos documentos utilizados para acessar a área de decolagem. O CVLBH, elaborou um relatório detalhado sobre o acidente que foi encaminhado as seguintes entidades: Associação de Vôo Livre de Juiz de Fora, Associação Brasileira de Parapente, Associação Brasileira de Vôo Livre, Federação Mineira de Vôo Livre, Perícia da Polícia Civíl de Minas Gerais e Gerência de Aerodesporto da ANAC. Esperamos que, como resultado desse lamentável acidente, os clubes de vôo livre, juntamente com as entidades nacionais possam estabelecer procedimentos e mecanismos de controle, que impeça outros indivíduos de utilizarem esses mesmos artifícios para burlar o controle dos clubes e continuar a praticar vôo livre sem a devida habilitação e preparação. CVLBH |
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